O Meio e o Si

Seu blog de variedades, do trivial ao existencial.

Primeiro round (conto)

transito briga

Aos 44 anos, sem querer, me meti na primeira briga. Vinha dirigindo voltando do trabalho quando, ao entrar numa avenida movimentada, fechei um carro que estava no meu ponto cego. Escutei buzina e qualquer coisa gritada enquanto o outro veículo me ultrapassava. Logo depois o motorista diminuiu a velocidade. Apesar de estar errado, fiz questão de abrir a janela e mandar o sujeito praquele lugar. E outras coisas mais.

O cara então se meteu na minha frente e freou devagar, parando na diagonal, de forma que eu não pudesse escapar. Saí do carro e, ainda sem ver o motorista, em tom já conciliador fui caminhando e pedindo desculpas pela fechada. Era tarde. Saiu do carro um sujeito visivelmente mais novo e mais forte que eu, com raiva nos olhos e uma confiança que eu não tinha. O cara literalmente fechou os punhos e começou a andar na minha direção. Outros motoristas buzinavam reclamando que estávamos atrapalhando o trânsito. Alguns pedestres paravam para assistir ao espetáculo que se formava.

Segui tentando colocar panos quentes: “Ô amigão, calma aê… Foi sem querer, já pedi desculpas”. Mas o cara não era bobo. O problema não foi a fechada, mas sim o monte de nomes que chamei ele, a senhora sua mãe e, se não me engano, sua irmã também. Se tiver irmã mesmo estou ferrado, pensei. Vou no mínimo tomar uma cabeçada que nem a do Zidane naquele italiano. “Por que sou tão pavio curto !?”, me perguntei. Pagarei caro por isso.

Nunca tinha brigado na vida. Sempre fui do tipo mais intelectual, artista, impressionava as menininhas com acordes, não golpes de jiu-jitsu. Nunca levantei peso, treinei remo, ou artes marciais; fiz três anos de natação na adolescência e olhe lá. E lá estava eu, com minha barriguinha saliente, calça jeans apertada, óculos torto na cara, suando que nem um porco, prestes a tomar uma surra.

O que deu em mim para xingar uma pessoa assim, do nada!? Mas que azar também, podia ter sido uma mulher, um velho… Ou alguém com algo mais interessante para fazer numa tarde de terça-feira do que me encher de porrada.

Mas não adianta chorar por leite derramado. Era eu e ele agora. O público já era considerável. Bando de sádico, pensei. Todos esperando para ver minha caveira. Eu também gosto de ver porrada, mas assisto MMA, é diferente, os caras estão lá porque querem. São pagos para isso, ora bolas. MMA… Pô, eu dava tudo para ser o Anderson Silva agora. Não contra o Chris Weidman, claro, contra o Forrest Griffin. Imagina só, dançar na frente do cara, deixar ele tontinho e … Pow! Acertar um jab humilhante e sair comemorando.

O sujeito estava a dois passos de mim. Eu já havia implorado demais por perdão, não tinha mais jeito. Anderson Silva. O cara armou o soco com o braço direito, abrindo a guarda. Anderson Silva contra Vitor Belfort. Não pode ser tão difícil. Sem pensar, lancei o chute frontal, alçando a perna com toda força. Senti a calça jeans rasgando na parte debaixo e um ventinho entrando na cueca. Minha perna desengonçada funcionou como um chicote, o bico do tênis batendo com toda a força na ponta do queixo do desafiante.

Ele ainda ficou meio segundo parado em pé, atônito, com o olhar abobalhado, antes de desabar, caindo primeiro de joelhos e depois tombando para o lado. Senti uma dor terrível na parte de trás da coxa, provavelmente um músculo distendido. Estava com a cueca aparecendo, o rosto pálido e suando às bicas. Mas não dei o braço a torcer. Fui caminhando, sem mancar, peito estufado, até meu carro. Dei uma última olhada ao redor para a plateia, que agora era minha. Dei ré sem pensar duas vezes e sai cantando pneu com um sorrisinho trêmulo nos lábios.

Veja também Natal para todos (conto)Ilustração: motivationalsmartass.com

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