O Meio e o Si

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O que o Brasil faria com o “Hemes”?

israel palestina

A melhor forma de compreender as atitudes do outro é colocando-se em seu lugar. No entanto, trata-se de um exercício muito difícil e, em alguns casos, simplesmente impossível. Por exemplo, por melhor que se explique e faça-se o esforço, um homem nunca poderá entender o que é a dor do parto. Ou a maioria de nós nunca saberá a emoção que um atleta sente ao quebrar um recorde mundial. Essa incapacidade de internalizar experiências alheias, boas ou ruins é, a meu ver, um dos motivos pelos quais grande parte da opinião pública não consegue se solidarizar com a situação que vive Israel.

Com o intuito de aproximar os brasileiros da realidade vivida pelos israelenses, criarei um cenário fictício. É impossível replicar o contexto perfeitamente, afinal os panos-de-fundo históricos são totalmente distintos. Mas espero que o texto hipotético abaixo ao menos estimule a reflexão. Vamos lá…

***

O Brasil vive há décadas em conflito com o Paraguai. Parte da população paraguaia resolveu tardiamente revoltar-se contra o Brasil por conta das terríveis consequências que a Guerra do Paraguai (século XIX) trouxe ao país: centenas de milhares de mortos (estima-se que 75% da população paraguaia tenha perecido no conflito!), dívidas financeiras, perda de território, opressão. Muitos paraguaios culpam o Brasil até hoje pela pobreza e subdesenvolvimento do país.

Nesse contexto, há cerca de vinte anos, surgiu o grupo Hemes. Mas as convicções do Hemes não são apenas geopolíticas ou socioeconômicas. O pensamento e as atitudes do grupo são regidos por uma religião tribal que classifica os brasileiros entre os “infiéis” que devem ser “aniquilados”. Isto porque o Profeta Guarani só voltará para levar todos ao Paraíso uma vez que não haja mais infiéis espalhados pela América Latina – principalmente nós “macaquitos”, que nem sequer o espanhol falamos e não devíamos pertencer à região.

Hemes é um grupo terrorista. Por que terrorista? Por um motivo muito claro. Em seu estatuto, o grupo fala abertamente em destruir o Brasil e sua imunda população de macaquitos. Seguem alguns trechos do estatuto do Hemes: “Nosso objetivo é aniquilar a nação brasileira”; “Sempre que surja a oportunidade, temos o dever de matar o maior número de brasileiros possível, mesmo que tenhamos que dar nossas vidas no processo”; “Ao matar os macaquitos brasileiros, iremos para o céu, onde o Profeta Guarani nos espera com 72 virgens”. Detalhe: esse discurso é ensinado em diversas escolas, onde crianças são desde pequenas expostas ao ódio contra o Brasil e os brasileiros. Nós, “monstros tupiniquins”, somos colocados como responsáveis por todos os males existentes no Paraguai.

Ao longo dos anos, operando como milícia à margem do governo do Paraguai, o Hemes cometeu, entre outros, os seguintes atos:

  • Explodiu 4 ônibus no intervalo de 3 semanas nas ruas Visconde de Pirajá e Prudente de Morais, em Ipanema, no Rio de Janeiro, matando 18 pessoas e ferindo mais de 80. Todos civis inocentes, incluindo jovens e crianças.
  • Explodiu, em horário de pico, um vagão do metro de São Paulo, matando 12 pessoas e ferindo mais de 100.
  • Explodiu ônibus em Brasília, matando 2 pessoas e ferindo 14.
  • Explodiu a casa noturna Carioca da Gema, na Lapa, Rio de Janeiro, enquanto jovens dançavam e se divertiam, matando 4 pessoas e ferindo mais de 10.
  • Explodiu bomba durante a festa junina da PUC-Rio, ferindo 18 estudantes, espalhando terror.
  • Explodiu bomba numa creperia no balneário de Búzios, matando 9 pessoas e ferindo 20, incluindo turistas.
  • Lançou milhares de mísseis ao sul do país, quase que diariamente, nos últimos 10 anos. Por sorte o exército brasileiro possui tecnologia anti-mísseis de ponta, evitando que a maioria causasse qualquer dano. No entanto, os mísseis apavoram a população do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, que se vê periodicamente tendo que esconder-se debaixo das camas ao soar de sirenes.

Quase todos conhecem alguém que foi afetado direta ou indiretamente por um desses atentados. No Jornal Nacional e no Fantástico, estórias de drama familiares dominam as notícias. Além da perda de vidas, uma das principais consequências desses atentados tem sido o fim da descontração no Brasil, resultado da tensão e tristeza. O carioca, por exemplo, já não anda tão sorridente. Qualquer aglomeração, como a praia de Copacabana, uma festa ou show, é cercada de medo e incerteza. Cada vez que uma pessoa com aparência paraguaia entra num ônibus de mochila nas costas, os passageiros se entreolham tensos. Não tem como piorar, tem?

Pois pasmem que, após anos atuando em relativa obscuridade, o Hemes foi democraticamente eleito para governar o Paraguai! E uma vez no poder, não largou mais. Os ataques do Hemes não apenas continuam mas agora são “oficiais”, ou seja, não se tratam mais de ataques de guerrilha, mas sim de um governo.

O Brasil, com intuito de evitar que a situação piore, intensificou a segurança na fronteira com o Paraguai, levantando muros e aumentando o número de soldados. O povo brasileiro em geral apoia a ação, afinal ninguém pode continuar vivendo sob o medo do terror.

No Brasil, após décadas de governos relativamente conciliatórios, que buscavam o diálogo com os vizinhos paraguaios tentando a paz através da diplomacia, a política guinou para a linha dura. Os brasileiros cansaram-se das tentativas frustradas de negociação de paz e elegeram um presidente de pulso firme na política com o Paraguai. A maioria de nós já acha que, no fundo, boa parte dos paraguaios não quer a paz. Afinal, seguem o discurso do Profeta Guarani, que promove abertamente o conflito com os “macaquitos infiéis”. Afinal, elegeram o Hemes, grupo que declaradamente se opõe à paz.

Enquanto isso, o isolamento do Paraguai traz consequências terríveis ao seu povo. A crise econômica e de infra-estrutura aumenta, o desemprego sobe, a revolta dos paraguaios cresce. Embora os atentados à bomba tenham sido reprimidos pela intensificação militar na fronteira, mísseis continuam a ser lançados sobre o território brasileiro. Como se não bastasse, 3 jovens paranaenses de 16 anos foram sequestrados e mortos gratuitamente pelo Hemes. Vaza também a notícia de que o Hemes teria cavado dezenas de túneis subterrâneos adentrando território brasileiro e que pretende retomar a onda de ataques à bomba contra civis no Rio de Janeiro e São Paulo.

O povo brasileiro exige do governo um fim a essa loucura! O exército do Brasil faz investidas em território paraguaio, buscando enfraquecer o Hemes, que encontra-se espalhado pelas áreas mais densas e populadas de Assunção. Para piorar, o Hemes tem como política usar a população civil como proteção, lançando seus mísseis de escolas e hospitais, e impedindo que as pessoas busquem refúgio mesmo quando o exército brasileiro avisa que vai atacar e onde. O Hemes sabe que a morte de civis paraguaios é trunfo importante na batalha midiática. Isso, aliás, não representa um conflito ético para o Hemes, afinal lembrem-se o que diz seu estatuto: “Sempre que tiver a oportunidade, temos o dever de matar o maior número de brasileiros possível, mesmo que tenhamos que dar nossas vidas no processo”. O fim justifica os meios.

Batalhas terríveis são travadas. Centenas de paraguaios morrem, entre militantes do Hemes e pessoas inocentes, inclusive crianças. Dezenas de soldados do Brasil morrem também. Os brasileiros, em sua maioria, se identificam e solidarizam com o sofrimento paraguaio. Ao mesmo tempo, se vêm na obrigação de apoiar o exército brasileiro na sua luta contra o Hemes. Deploram a morte de civis. Mas culpam o Hemes por o que está ocorrendo e, em sua maioria, não vê alternativa às ações de nosso exército.

A opinião pública internacional, chocada com a morte de civis (e possivelmente movida também por um ódio já enrustido por nós, macaquitos) condena unilateralmente as ações do Brasil. Ao mesmo tempo, ignora todas as complexidades, desafios e nuanças do conflito. Alguns chegam a insinuar que o Brasil atua de forma a deliberadamente matar paraguaios! Esquecem que, caso não prezasse pela vida alheia, com sua superioridade bélica, o Brasil poderia facilmente  aniquilar com o Hemes, bombardeando todo o território paraguaio, causando centenas de milhares de mortes. Outros críticos ignorantes chegam ao ponto de romatizar a atuação do Hemes, achando que são algum tipo de exército libertador, e não os terroristas que são.

Nós brasileiros nos sentimos tristes, injustiçados e frustrados. Nosso sonho é viver em paz com os vizinhos paraguaios. Mas como chegar à paz enquanto do outro lado estão grupos como o Hemes? Como lutar contra um inimigo que se esconde entre a população? Como nos defendemos sem penalizar a população paraguaia? Como largar as armas e buscar o diálogo quando o Hemes e nosso atual governo não querem conversar?

Torçamos todos, de coração aberto, pela paz na América Latina!

***

6 comentários em “O que o Brasil faria com o “Hemes”?

  1. Robson Fernando de Souza
    18 de agosto de 2014

    A reflexão é interessante. Mas e quando, nesse caso fictício, milhares de paraguaios inocentes são assassinados pelo Estado brasileiro, este não tem o mínimo pudor em matar os inocentes alegadamente usados como escudos humanos pelo “Hemes”? E quanto ao Brasil, nesse mesmo caso, nutrir em seu território uma ideologia ultranacionalista que implica a inferiorização moral de povos vizinhos, especialmente os paraguaios, com muitos casos de ódio racial que, de tão extremistas, se comparam ao próprio nazismo que no passado havia massacrado os próprios judeus?

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    • Entrepreneurship Compass
      18 de agosto de 2014

      Oi Robson,
      Conheço muito bem a região e a meu ver nem todas as suas colocações, apesar de bem intencionadas, são necessariamente precisas.
      Sim, verdade que palestinos inocentes são tragicamente mortos. Mas Israel não o faz “sem o mínimo pudor”, conforme dito. Que exército vc conhece no mundo que envia panfletos e faz telefonemas avisando que vai bombardear, pedindo que a população evacue? Nenhum. Israel, sim. Israel por ex também puniu os extremistas israelenses que mataram aquele jovem palestino, aplicando a lei para todos. É claro que isso não o exime da responsabilidade pelos seus atos, nem pelas mortes de civis no conflito, mas essas atitudes têm algo a dizer sobre sua intenção em evitar perdas civis.
      Tbm não é correta a afirmação de que a ideologia “implica a inferiorização… com ódio racial etc.” Sim, o ódio existe. Mas é fruto de décadas de mortes e hostilidades. Não é alimentado pelo Estado israelense, com certeza não da forma como o ódio contra os judeus/israelenses é ensinado e alimentado na Palestina. Acredite, o que a maioria das pessoas em Israel quer é a PAZ. E a maioria (ou boa parte, dependendo das pesquisas) na Palestina? Que Israel suma do mapa. Se ambos os lados quisessem igualmente a mesma coisa, a paz aconteceria.
      O discurso mais lúcido que vi sobre o tema é esse, do filósofo, ateu e neurocientista Sam Harris (que vc aliás já deve conhecer): https://www.youtube.com/watch?v=r27KAFDSfbU&app=desktop
      Enfim, o assunto é delicado e complexo, e opiniões bem articuladas como as suas, independente de concordarmos ou não, são bem vindas.
      Abraços!

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      • Robson Fernando de Souza
        18 de agosto de 2014

        Olá, obrigado pela apreciação e pela cordialidade. Respondendo:

        “Que exército vc conhece no mundo que envia panfletos e faz telefonemas avisando que vai bombardear, pedindo que a população evacue? Nenhum. Israel, sim.”

        Não acredito que isso justifique o bombardeio de casas de inocentes, escolas, hospitais, campos de refugiados etc.

        “Sim, o ódio existe. Mas é fruto de décadas de mortes e hostilidades. Não é alimentado pelo Estado israelense, com certeza não da forma como o ódio contra os judeus/israelenses é ensinado e alimentado na Palestina. Acredite, o que a maioria das pessoas em Israel quer é a PAZ. E a maioria (ou boa parte, dependendo das pesquisas) na Palestina? Que Israel suma do mapa. Se ambos os lados quisessem igualmente a mesma coisa, a paz aconteceria.”

        Se realmente não há nenhum fomento vindo do Estado israelense, o que dizer dos governos israelenses de direita, como o atual de Netanyahu, que é aliado de uma extrema-direita fortemente antiárabe e antipalestina e tem uma postura intransigente de oposição a acordos consistentes e bem negociados de paz?

        E cá pra nós, a estratégia de Israel tem sido tudo menos inteligente, já que já são tantos anos de massacre e, mesmo assim, os movimentos ditos terroristas e de ódio não foram eliminados com a devida estratégia, os dois lados continuam vivendo uma situação desesperadora e governos como o de Netanyahu têm rejeitado negociar acordos permanentes com seriedade – e preferido usar a força bruta em vez de estratégia e diplomacia. Fica a impressão de que os estadistas israelenses apuram ganhos com essa guerra permanente, tal como o Partido do livro 1984 apurava ganhos com as guerras permanentes da Oceania contra Lestásia e Eurásia.

        Quanto a discursos lúcidos, imagino que existam discursos lúcidos dos dois lados – contra o Hamas e contra o massacre de palestinos inocentes. Sendo minha vez de mostrar um discurso lúcido, lhe indico esse post, que compartilhei, no meu blog, de uma brasileira que é voluntária num campo de refugiados palestinos: http://consciencia.blog.br/2014/07/sandra-guimaraes-5-pontos-de-discussao-israelenses-sobre-gaza-desmascarados.html

        Abs

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      • Entrepreneurship Compass
        18 de agosto de 2014

        Olá,
        Acho que nossas opiniões são menos divergentes do que possa parecer. Primeiro, esclarecendo, sou contra a política “brucutú” do governo Netanyahu. E concordo que a estratégia não é inteligente e não dá certo. Só não tenho alternativa para oferecer, infelizmente… Acho que ninguém tem. Negociar com o Hamas não é opção. Como negociar com uma contraparte que promove abertamente seu genocídio e não aceita seu direito de existir?
        De qq maneira, entendo que Netanyahu só chegou ao poder (e Ariel Sharon antes dele) depois de décadas de tentativas de diálogo frustrado de governos mais de esquerda e pacifistas (Rabin, Barak, Perez etc). Lembra do Arafat e Rabin apertando as mãos na Casa Branca… ganharam até o Nobel da Paz! Mas na hora de honrar o acordo, criar dois Estados, com tudo dividido conforme acordado, OLP deu para trás (o assassinato de Rabin tbm não ajudou, claro, mas a proposta ainda estava na mesa). Ou seja, a brutalização do Estado de Israel é, a meu ver (e Sam Harris diz isso tbm), fruto da desilusão do povo israelense após anos de tentativas de diálogo diplomático. Hoje, vc conversa com israelenses que eram de esquerda nas décadas de 80 e 90, super pacifistas, e os escuta dizer coisas do tipo: “Não acredito mais na paz dialogada, infelizmente. O outro lado não quer negociar. Só nos resta nos defendermos”.
        Respondendo seu ponto, não acho que a principal questão seja que governo israelense promova sentimento anti-árabe. Ele já é, sim, FRUTO desse sentimento. A questão, conforme eu disse acima, é que essa situação de hoje provém de décadas de intransigência do lado palestino também. Hoje, inclusive, os principais países árabes (Egito, Líbano, Jordânia etc) já aceitam Israel e estão perdendo a paciência com o Hamas, que é um câncer para a região. Isso diz algo muito significativo.
        Abs!

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      • Robson Fernando de Souza
        18 de agosto de 2014

        Compreendo o que vc diz sobre o Hamas não ser aberto ao diálogo.

        Mas como eu falei, a estratégia israelense é a pior possível, e deixa claramente a parecer que o Estado de Israel tem a ganhar ao manter uma situação de “guerra permanente” e segregação contra palestinos inocentes em vez de atuar com estratégias “cirúrgicas” que eventualmente enfraqueçam e derrubem o Hamas (ou as vertentes ideológicas internas do Hamas mais extremistas) e não precisem matar gente inocente.

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      • Entrepreneurship Compass
        18 de agosto de 2014

        Concordo que a estratégia é a pior possível, Robson. Só não sei se se trata de “ter algo a ganhar” ao manter a situação, ou simplesmente um baita erro estratégico mesmo. Não acho que seja do interesse de Israel matar inocentes. Não é bom para o processo de paz, para sua imagem, e mesmo para os negócios. E lembre-se que o diálogo já foi tentado várias vezes, em outros governos. Abs!

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Publicado às 7 de agosto de 2014 por em FILOSOFIA & INDIVÍDUO, SOCIEDADE & POLÍTICA e marcado , , , , , .

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