O Meio e o Si

Seu blog de variedades, do trivial ao existencial.

Árvore dá vida (conto)

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Mãe e filha chegaram ao parque no fim da tarde, em um dia como outro qualquer. Era outono, temperatura agradável, céu nublado. Crianças de diversas idades brincavam: equilibravam-se em gangorras, subiam em trepa-trepas, desciam gritando nos escorregas. Outras jogavam bola, apostavam corrida, brincavam de pega-pega. Havia poucas crianças de sua idade, a maioria parecia ter mais que seus quatro anos. Era tímida e vaidosa e, como estava com um vestidinho novo, limitou-se a sentar no balanço, que ficava na parte de chão cimentado, longe da poeira do resto do parque. Sua mãe sentou-se em um banco de pedra a poucos metros do balanço, observando a movimentação e respirando o ar fresco daquele lindo parque arborizado.

Era uma árvore centenária. Habitava aquele espaço muito antes de existir parquinho, quando a região ainda era floresta pouco explorada. Maior que um edifício de sete andares, tinha o tronco grosso e retorcido, as raízes tão longas que entravam na terra para sair um metro adiante e depois sumir novamente. Os galhos eram compridos e pesados, com ramificações próprias das quais as poucas folhas que sobravam exibiam seus vermelhos e amarelos.

Queria a atenção de sua mãe, que olhava distraída para um ponto fixo, mas não ousava chamar por ela, por acanhamento e porque não conseguiria competir com os gritos das outras crianças. Esperou que o olhar da mãe encontrasse o seu e, com um sorriso cúmplice e um mexer da cabeça, se fez entender. A mãe sorriu e levantou-se para empurrar o balanço da filha, que se deliciava com o friozinho na barriga de cada pendulada.

A noite anterior havia sido de vento forte, as folhas que teimaram em resistir agora só cairiam com a próxima chuva. Um ninho com três ovos tombara com a ventania, um ovo se espatifando e os outros dois permanecendo intactos dentro do ninho. Um dos galhos mais altos e compridos se via ligeiramente descascado e esbranquiçado em seu elo com o tronco. Estava mais inclinado que os demais, destoando da simetria do resto da árvore. Galho finado em tronco de vida.

A filha estava com fome, não comia desde o almoço na creche. Sua mãe tirou da bolsa a maçã que trouxera envolta em papel alumínio e sentaram-se no banco de pedra.  Olhou para a mãe com ternura e começou sozinha a desembrulhar a maçã – já era menina grande! Sua mãe fitou-a com orgulho e pôs-se a observar aquele pingo de gente, criado à sua semelhança, alimentando-se do fruto gerado por outra vida.

O golpe de misericórdia foi oculto, aparentemente aleatório. Da mesma forma como as folhas desprendem-se dos galhos, o galho desprendeu-se do tronco. O barulho àquela altura chegou embaixo tão leve quanto um suspiro, sem nenhuma pretensão de alarde. Mãe e filha seguiam alheias: mãe desfrutando filha, filha desfrutando fruto. O enorme galho caía com todo o seu peso, em seu tempo, indiferente ao parquinho, aos pássaros, às formigas, às crianças.

Um estrondo, acompanhado de um sopro na nuca, fez a mãe saltar do banco com um arrepio na espinha. Olhou para trás, depois para o chão, e viu uma maçã mordida rolando na direção dos seus pés. Atrás dela, a dois palmos do banco, um enorme galho de árvore, que mais parecia um tronco. Ainda sentada, sua filha a olhava assustada.

Perguntou para a mãe o que havia sido aquele barulho que a fizera largar a maçã de susto. Não percebeu o enorme corpo de madeira que jazia atrás do banco. Sua mãe, com lágrima nos olhos, disse que não havia sido nada. E que naquela noite poderia dormir na cama com mamãe e papai.

Ilustração: Frank Tschakert

9 comentários em “Árvore dá vida (conto)

  1. Pingback: Natal para todos (conto) | O Meio e o Si

  2. Richard França
    27 de setembro de 2013

    Foi como ver o ataque de uma onça para alimentar um filhote…ou seja, forte e delicado. De fato, muito agradável. Parabéns!

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    • O Meio e o Si
      28 de setembro de 2013

      Obrigado, Richard. Muito interessante sua analogia também. Volte sempre!
      Abs,
      AA

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  3. sonia chequer
    25 de setembro de 2013

    Parabens pelo texto. Compartilhei.

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  4. O Meio e o Si
    22 de setembro de 2013

    Que ternura, meu filho!!!! Chorei ao ler o texto e ver a foto linda do meu neto, abraçando a árvore…

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  5. Maria Do Rosário Peixoto
    19 de setembro de 2013

    Gostei do seu texto, pq eh singela e agradavel a leitura, para mim tanto filosofica quanto psicanalitica.

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    • O Meio e o Si
      20 de setembro de 2013

      Obrigado, Maria. Você realmente parece ter assimilado todas as referências. Volte sempre!
      Abs

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Publicado às 19 de setembro de 2013 por em FILOSOFIA & INDIVÍDUO e marcado , , , , , , , , , .

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